segunda-feira, novembro 12, 2007

Assassino da paciência.


Assassino da paciência!
Outro dia estava no Detran, fazendo vistoria da moto, quando por não sei porque cargas d’ água, me vi conversando com outro sofredor, refém da letargia e morbidez burocrático do Estado, onde reclamávamos e nos identificávamos em nossas lamentações. Foi quando surgiu aquele papo de que moto é perigoso, e que todo mundo já conheceu alguém que já morreu em acidente de moto, ou conhece alguém que conheceu alguém que morreu devido ao veículo citado. Nessas vias de estórias ou histórias que mais servem para apressar o ponteiro do relógio, ele me contou que teve um amigo que estava com ele na praia, num domingo ensolarado de verão, onde brincaram e se divertiram muito. Amigo esse, que ao voltar para casa, em casa não chegou, visto que depois de um acidente de moto, veio a falecer no mesmo local do acontecido. Quando ele chegou em casa, já bem mais tarde, à noite, sua mãe disse que tal amigo havia morrido já a algumas horas. Retrucando ele com sua mãe, atordoado exclamava que não era possível, posto que a imagem que ficara, era da despedida na praia e impossível acreditar na notícia. Onde quero chegar com esse relato? Já explico. O rapaz tinha morrido à tarde e ele só ficara sabendo à noite, quando chegou em casa, pois a mãe foi avisada por uma vizinha que tinha telefone convencional, visto que era luxo possuir um, e que tal era agraciado, geralmente se tornava a central de recados da rua, talvez até do quarteirão inteiro. Fiquei então pensando nas coisas que “meu companheiro de suplício’ estivera fazendo nesse ínterim, entre a morte e a notícia da morte do colega. Creio que muitas coisas... Com todo respeito à dor dos familiares do rapaz falecido, mas creio que a vida do colega vivo continuava normalmente, independente do fato de morto estar, seu amigo que na praia, se despedira. Talvez ele tenha, comido, gargalhado, refletido, nadado, dirigido, paquerado, feito compras, planejado muitas coisas e feito muitas coisas, apesar de morto estar seu amigo. Hoje, não somente o telefone convencional foi popularizado, assim como os aparelhos de telefonia móvel, os celulares. Quase todo mundo tem. Pode não ter livros, geladeira, computador, internet, mas TV e celulares, creio que têm, ainda que muito faltando. Se hoje acontecesse o fatídico fato relatado, o celular adiantaria a notícia. Ele teria sabido muito mais rápido, da morte do amigo. E muito mais rápido, teria entristecido, talvez se culpado, não teria feito muita coisa que fez, posto que o celular a paz lhe roubara.Mesmo se morte não houvesse acontecido, tensão surgiria da notícia que a nós, afligiria. Não sou insensível e respeito o luto das pessoas, mas o que quero dizer é que o enterro não foi antecipado porque a notícia assim o foi. O luto dos parentes não foi amenizado porque a notícia da morte logo se estendeu. As lágrimas não foram reduzidas porque o tempo assim o foi. O rapaz não ressuscitara porque o celular assim tocara. O que quero dizer e onde quero chegar; é que não sei o que tanto as pessoas têm a dizer uma as outras, que não possa esperar o encontro face a face. O que é tão urgente que separa gente e a gente fica sem gente ver, posto que apenas as ouvimos através de ondas magnéticas? Quantas tensões são geradas pelas expectativas de tragédias que são adiantadas pelo simples fato da falta de paciência das pessoas se encontrarem? Quantas vezes ouço: “Por via das dúvidas, vou ligar para fulano...” Ora, não é por via das dúvidas que se é possível viver, mas por via das certezas ainda que cambaleantes, e essas, precisam de tempo para assim tornarem verdades e não podem prematuramente, nascerem! Certezas precisam de tempo, mas as dúvidas podem e geralmente são de “ sete meses”. Penso que os celulares têm roubado nossa paz. Nossa paz no restaurante, nossa paz na escola, nossa paz no trabalho, nossa paz no orçamento, nossa paz na conversas entre amigos. Não vi o mundo melhorar com o advento do celular. Sei que estou trazendo polêmica, mas polêmico não sou. Apenas relato o que penso, sempre respeitando o que não penso, mas é pensado por meu próximo. Outro dia até vi na TV, extorsão via celular. Sei que em alguns casos, foi por ele que se chegou ao refém, mas mais estragos fez, do que emancipou. Quantos assaltos, quantos mortes por causa dos celulares. E a moda dita a moda. Agora se troca de aparelho, como se troca de roupa, já não é ferramenta tecnológica, mas sim, ornamento vestuário e instrumento de competição vaidosa. Chique é não ter e se assim impossível for, bárbaro é evitá-lo.

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