segunda-feira, março 31, 2008

Árvores, estranhos homens



Árvores, estranhas árvores

Outro dia estava olhando uma grande árvore.
Como era frondosa e imponente. Parecia inabalável. Sua copa era imensa e proporcionava uma grande sombra àqueles que ao seu redor ficavam. Seu tronco, robusto e soberano, demonstrava como personificação de poder, a invariabilidade e imobilidade que enfrentava todas as intempéries desta vida ─ variações climáticas e cíclicas.
Com o decorrer do tempo, sua aparência já não muda mais, pois se torna uma guardiã dos dias que se passam.
O segredo de tal majestade, verifica-se no crescimento.
Uma árvore, para ter porte de grande árvore, tem que crescer em três direções. Para baixo, para o lado e para cima. Sim, para crescer e ser forte, precisa descer, aprofundar suas raízes, sugar o solo, beber água e “comer terra”, se infiltrar na terra, desaparecer aos olhos... Precisa criar raízes que se espalhem por onde não se vê. Precisa se arraigar, se fixar contra as intempéries. Precisa ter alicerces, ainda que o terreno não seja bom, precisa superar essa deficiência, se expandindo mais ainda. Ela também precisa subir. Precisa de ar, precisa de luz, precisa de vento. De outra forma, precisa retirar aquilo que é do alto, que fica em cima. Precisa olhar para o céu. Transformar o quer é gasoso em sólido, em solidez e assim, nutrir seu próprio corpo. Mais falta ainda, crescer para o lado. Aumentar seu tronco, se fortificar visivelmente. Suberificar-se para não morrer . Ocupar espaços e se mostrar inabalável. Se expandir.
Assim também precisam ser os homens...
Precisam criar raízes, produzir alicerces. Esses não são visíveis, assim como não são, as raízes. São o que os homens trazem de sua historicidade. Sim as raízes dos homens árvores é a sua historicidade. Emoções que cresceram na escuridão das recamaras de suas almas, onde poucos têm acesso. É preciso muito cavar para perscrutá-las. E esses alicerces, para serem saudáveis, precisam de água, precisam da ÁGUA DA VIDA. E essa é que umedece, amolece, os terrenos rochosos de nossa alma.
Para se conhecer verdadeiramente a árvore, precisa-se conhecer a sua raiz.
Contudo assim também são homens. Eles crescem para cima. Crescem quando olham para o que vem do alto, para a espiritualidade que revela quem somos ou o que não queríamos ser, ainda que irremediavelmente e infelizmente sendo. A gente precisar crescer em direção a essa direção. Em direção ao alto. Ainda, precisamos também assim como as árvores, crescer para os lados e atingir quem está ao nosso lado. Como elas, precisamos gerar sombra e fresco para as pessoas que “plantadas” junto de nós estão. Elas podem ser arrancadas muito depressa e sem nosso consentimento...
Precisamos gerar também frutos e esses bons. Só assim a eternidade chega-se a nós. Através de nossos frutos que novas árvores se tornarão árvores frutíferas e delas novas também surgirão. Uma árvore sem frutos é uma árvore sem futuro. Pessoas sem frutos− penso −, nem árvores são. São matos. Capim sem valor. Todavia não há preocupação em se gerar frutos. Tá no DNA da árvore, assim como no dos homens de boa vontade. Nesse processo, o que mais se precisa é de energia. Daí a necessidade de se obter mais e mais luz , mais e mais A LUZ DO MONDO em nós, para que em nós, fruto gere. Interessante que parece que a árvore é que escolhe a luz, mas isso não é verdade. É a LUZ que nos escolhe assim como escolhe as árvores. Sem luz os homens/árvores nada podem fazer, até mesmo não podem crescer. Pois o SOL DA JUSTIÇA continua sendo sol sem as árvores, mas as árvores, árvores não serão sem o SOL.
Assim são os homens e o seu destino primordial. Árvores se tornarem... Frondosas árvores frutíferas... Um beijo, Marcelo.

segunda-feira, março 03, 2008

Tocar não é pegar...



Uma amiga minha , que dentre outras coisas, é professora de educação física me disse da extrema dificuldade das pessoas em se tocarem. Nas atividades lúdicas, as pessoas ficam extremamente constrangidas quando solicitado até mesmo uma aproximação. Posto da constância de ocorrência em suas aulas, pediu-me ela, que escrevesse um pouco sobre tal assunto. Não, não sou psicólogo nem tenho formação nenhuma acadêmica para tal assunto. Mas irei pensar e pensando vou escrevendo e escrevendo vou, quem sabe, até me tratando se houver, creio que sim, dificuldade de minha parte também quanto à questão.
Em primeiro lugar, gostaria de fazer uma diferença entre tocar e pegar. Creio que a confusão está aí. Quando pego, eu tomo, e se tomo, alguém que tinha ficou sem e mais carente ainda se torna, passando a exercer como autodefesa, um sentimento de precaução exacerbado, amplificado pelas neuroses de uma vida que é ditada na maioria dos casos, por forças externas, não muito bem entendidas por nós mesmos, e assim sendo, nos tornamos essencialmente seres arredios da aproximação. Pior que quando assim agimos, perdemos facilmente o conceito do toque, que é compartilhar. Compartilhar vida, cheiro, pulsação, alegria, esperança e num ato mais sublime consolo.
Sei que realmente tem gente que não sabe tocar, pois só quem foi tocado pode tocar e não confundi o toque com o pegar. Sofreram e sofrem das demandas emocionais dos abusos sofridos, posto que estavam abertos, no início, a serem tocados, mas por maldade doentia daqueles em que tal confiança foi deposita, ao invés de compartilharem simultaneamente da satisfação recíproca do que toca e do que é tocado, tiveram seus tesouros roubados, seus pertences e com a alma sangrando assim ficaram depois do abuso sofrido, muitos por aqueles que mais amamos, potencializando a dor e o desespero de um grito silencioso.
E aí se faz cultura. O tempo passa e os abusados crescem e geram descendentes, mas inculcam nesses, sentimentos sofridos revestidos de comportamento adequado e se assim não fora, adentra-se no que é considerado anormal e passível de preconceito e discriminação, e essa como autodefesa.
O maior órgão de nosso corpo é a pele. Nela encontramos centenas de milhares de terminações nervosas que fazem a gente sentir os mais variados ambientes, contudo, por causa do que foi dito antes, o ambiente denominado carne de outrem torna-se maldito e território proibido.
Interessante é que em muitos casos, por não querer tocar, a gente passa a querer pegar e de abusados, nos tornamos abusadores. Aí sim, a gente passa a tocar com segundas intenções, ou seja, passa a pegar literalmente as pessoas, olhando-as sempre como objeto de prazer para nós mesmos, ou seja, passamos a “coisificar” pessoas.
Sei que a cara não trás quem verdadeiramente somos, mas creio que ainda valha a pena dar as mãos, apertar abraços, alisar cabelos, secar lágrimas e dançar juntinho, mesmo correndo o risco de alguém pegar “algumas coisas” de nós, quando pensamos que simplesmente estamos sendo tocados e tocando. E se isso acontecer, vamos tocar nossas próprias mãos, na junção de suas palmas e, num ato de oração pedir: “Pai perdoa-lhes porque não sabem o que fazem.”
Marcelo Pinto.