segunda-feira, março 03, 2008

Tocar não é pegar...



Uma amiga minha , que dentre outras coisas, é professora de educação física me disse da extrema dificuldade das pessoas em se tocarem. Nas atividades lúdicas, as pessoas ficam extremamente constrangidas quando solicitado até mesmo uma aproximação. Posto da constância de ocorrência em suas aulas, pediu-me ela, que escrevesse um pouco sobre tal assunto. Não, não sou psicólogo nem tenho formação nenhuma acadêmica para tal assunto. Mas irei pensar e pensando vou escrevendo e escrevendo vou, quem sabe, até me tratando se houver, creio que sim, dificuldade de minha parte também quanto à questão.
Em primeiro lugar, gostaria de fazer uma diferença entre tocar e pegar. Creio que a confusão está aí. Quando pego, eu tomo, e se tomo, alguém que tinha ficou sem e mais carente ainda se torna, passando a exercer como autodefesa, um sentimento de precaução exacerbado, amplificado pelas neuroses de uma vida que é ditada na maioria dos casos, por forças externas, não muito bem entendidas por nós mesmos, e assim sendo, nos tornamos essencialmente seres arredios da aproximação. Pior que quando assim agimos, perdemos facilmente o conceito do toque, que é compartilhar. Compartilhar vida, cheiro, pulsação, alegria, esperança e num ato mais sublime consolo.
Sei que realmente tem gente que não sabe tocar, pois só quem foi tocado pode tocar e não confundi o toque com o pegar. Sofreram e sofrem das demandas emocionais dos abusos sofridos, posto que estavam abertos, no início, a serem tocados, mas por maldade doentia daqueles em que tal confiança foi deposita, ao invés de compartilharem simultaneamente da satisfação recíproca do que toca e do que é tocado, tiveram seus tesouros roubados, seus pertences e com a alma sangrando assim ficaram depois do abuso sofrido, muitos por aqueles que mais amamos, potencializando a dor e o desespero de um grito silencioso.
E aí se faz cultura. O tempo passa e os abusados crescem e geram descendentes, mas inculcam nesses, sentimentos sofridos revestidos de comportamento adequado e se assim não fora, adentra-se no que é considerado anormal e passível de preconceito e discriminação, e essa como autodefesa.
O maior órgão de nosso corpo é a pele. Nela encontramos centenas de milhares de terminações nervosas que fazem a gente sentir os mais variados ambientes, contudo, por causa do que foi dito antes, o ambiente denominado carne de outrem torna-se maldito e território proibido.
Interessante é que em muitos casos, por não querer tocar, a gente passa a querer pegar e de abusados, nos tornamos abusadores. Aí sim, a gente passa a tocar com segundas intenções, ou seja, passa a pegar literalmente as pessoas, olhando-as sempre como objeto de prazer para nós mesmos, ou seja, passamos a “coisificar” pessoas.
Sei que a cara não trás quem verdadeiramente somos, mas creio que ainda valha a pena dar as mãos, apertar abraços, alisar cabelos, secar lágrimas e dançar juntinho, mesmo correndo o risco de alguém pegar “algumas coisas” de nós, quando pensamos que simplesmente estamos sendo tocados e tocando. E se isso acontecer, vamos tocar nossas próprias mãos, na junção de suas palmas e, num ato de oração pedir: “Pai perdoa-lhes porque não sabem o que fazem.”
Marcelo Pinto.

2 comentários:

Mariana Rodrigues disse...

Oi Marcelo, você escreve textos muito legais, adorei!!!
beijos...

Mário Amorum Espiuca Falcão disse...

algumas pessoas escrevem, outras transcrevem... mas você Marcelo, só nos encanta com teu coração distribuído e atribuído em palavras, nas tuas palavras. um grande abraço de um amigo e eterno fã teu.