sábado, dezembro 23, 2006

Angustia

A maior angustia do homem é não se conhecer. Saber da inconstância de seus pensamentos e o vício de colocar e creditar segurança naquilo que é tão rígido quanto palha seca e efêmero como nuvens caminhando. Medo e decepção se fazem presente muito mais que o desejado e de fato a insatisfação é o sentimento mais verdadeiro que temos. Doloroso é saber que a volúpia da alma nunca é satisfeita. A procura de quem somos, ainda que inconsciente, acontece muito mais freqüente que imaginamos. E partimos no veleiro chamado de “nossa vida”, na vã procura de nós mesmos,e de vez em quando, chegamos em portos nos quais o sentimento de estupefação nos agride, pois encontramos “monstros”, variáveis do que somos e nos tornamos, nestes, as lutas acontecem, na vã tentativa de crer e no sentimento de aceitação de que não somos aquilo que estamos vendo naquele momento. Mas a verdade sempre vem, trazendo consigo o “outdoor” da acusação, e penitente muitas vezes nos tornamos. Pior é, que essa penitencia não vem como penitencia, e sim, como bel-prazer de alívios alucinógenos anestesiantes, que nos fazem procurar espelhos disformes segundo as nossas intencionalidades. Nessa dinâmica, embarcamos em direção ao oriente da senilidade, achando que os próximos portos serão diferentes. O que não é verdade, pois, novamente deparamo-nos com os seres mitológicos e bizarros que fazem parte de cada um de nós. Esses vêm, disfarçados de nossas verdades,nossas faculdades, nossas idiossincrasias, que aparentemente gostosas para nós, são absinto e fel para os que nos cercam. E velejamos em constante estado de guerra, onde o sono não descansa, a comida não alimenta e o lazer só o é, na etimologia da palavra, pois prazer não dá, quando muito, um pouco de contentamento, que muito é diferente de alegria. E muitos, por não agüentarem a violência das ondas que transfiguram o barco, acabam por trocarem a calafetagem, por maceração de seus próprios cascos, tirando a própria vida.
Marcelo.

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